19

julho

Sonhos

Sempre ouvi que devemos ir atrás dos nossos sonhos. E sempre destaquei a palavra sonhos. Não tinha me dado conta que a palavra nossos era tão importante quanto a outra.

Nossos sonhos.

Sem querer querendo, corremos atrás de sonhos sem perceber que nem sempre são os nossos.

Deu linha cruzada.

São de alguém que queremos ajudar, agradar ou compensar, por acharmos que seu destino é pesado demais. Talvez, por isso, muitos dos nossos sonhos não dêem certo. Talvez, lá no fundo, a gente nem sempre se dedique suficientemente à eles. Por vezes até  acreditamos, mas pensamos em concluir um sonho de cada vez. E o nosso acaba indo para o fim da fila.

Neste tipo de sonho, muito secretamente, quem comanda é a razão. Em nome do coração. Mas ainda assim, a razão. Achamos que, se amamos, temos que realizar os sonhos alheios.

E a gente passa anos, fases inteiras de nossas vidas, tentando alcançar o sonho que mora em outro peito. A ironia está no fato de que seguimos os sonhos de nossos pais e, quando eles são realizados, não tem a alegria esperada.

Nesse momento é tão importante lembramo- nos do respeito ao que mora dentro do outro. Talvez aquele desejo fosse o desejo de outra época, para ser saboreado com pessoas que talvez não estejam mais presentes. Ou com uma idade um tantinho menor do que a de agora. E é por isso que é tão delicado buscar obsessivamente realizar desejos de outras pessoas. Muitas vezes eles só querem ser sonhados por dentro.

A gente adota sonhos alheios e, se bobear, deixamos os nossos para adoção. Assim a gente vai criando uma bola de neve que passa de geração para geração. Fazemos isso e, de novo, sem querer querendo, vamos passando a mensagem para nossos filhos. Estes acolhem o exemplo, adotam nossos sonhos, deixando os seus para trás. Por amor buscamos realizar os desejos que nasceram no passado e ainda vivem no agora, daqueles que são importantes para nós.

E fazemos uma confusão por causa disso.

Ás vezes dá certo. Mas, quando dá errado, olhamos para trás e lá se foi um tantão de vida.

E cabe tanta coisa nela!

A gente pode fazer um pouquinho diferente. Bem pouquinho, para não assustar nossa zona de conforto. A gente pode parir também os sonhos que povoam nosso peito, e se atrever a realizá-los. Pelo menos chamá-los de meus, de nossos. Porque podemos ser felizes e dedicar esta felicidade à quem tanto nos ajudou.

Pelo menos regar os sonhos que também merecem e precisam de nosso cuidado.

Talvez, assim, nossos filhos tenham um exemplo mais coerente de tudo aquilo que aconselhamos a eles.

Fernanda Nunes Gonçalves

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1

junho

A Voz do Maxilar

 

Ela, uma conhecida, não era o tipo de pessoa que, quando era hostilizada, respondia na mesma hora. Ela prendia as palavras. Prendia o que sentia. O que pensava. Tinha aprendido a engolir dores.

Na maioria das vezes, as palavras ficavam fortemente presas entre seus dentes e gerando tensão no seu maxilar. Na mordida que segurava um possível  “já chega” ou, talvez, palavras mais duras ainda do que aquelas que tinha ouvido. Ou ainda, carregando segredos da alma revelados pelo corpo.

Pois, no corpo moram alguns segredos que muitas vezes temos receio de decifrar à nós mesmos. E é quando a gente aceita se conectar às nossas verdades que estão em movimento, mas ainda são nossas, que pode se iniciar ou enriquecer o processo de cura.

E assim como muitos remédios tratam nossas dores, outros tantos silenciam estas mesmas dores e nos distraem do essencial, de uma possível cura que muitas vezes está disponível, mas percorremos um caminho que nos distancia desta possibilidade. Calar uma dor segue um caminho diferente do querer curar a alma e o machucado que se revela.

Pois as certezas não moram neste mundo. Nem sempre um sintoma tem dono. O ranger de dentes pode ter uma cor para mim e outra para você.  Há segredos que se vestem de gastrite e dores da alma que vivem na enxaqueca. Por isso o caminho de reconexão com a alma e com o instinto de vida são a essência de um corpo que quer o futuro.

Que a gente possa atrever-se e arriscar-se á uma escuta e uma postura amorosa e respeitosa diante de tudo que nos habita emocionalmente e que nos transforme as dores mais profundas que se materializam através de nossas doenças e nossos sintomas.

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19

maio

A ponte entre a maternidade e o day trading

Volta e meia alguém me pergunta se sou day trader. É lógico que a pessoa está referindo-se ao mercado financeiro. Mas confesso que preciso lembrar disso antes de responder. Pois, apesar de fazer  operações como day trader no mercado financeiro, sinto-me tão ou mais day trader fora do mercado, como, por exemplo, na maternidade.  

Este texto acolhe também a paternidade, mas farei uma referência às minhas percepções como mãe!

É impressionante como duas vivências tão distintas podem ter tantas coisas em comum e nos ensinar tanto! O que aprendemos na maternidade/paternidade levamos para o mercado e vice-versa. Aliás, não só na maternidade, mas na nossa vida como um todo.

A maternidade não é um negócio mas, ás vezes (quase todas), o mercado se comporta como uma criança. Pronto. A partir desta ligação, compreender o mercado fica muito mais simples. E antes de mais nada,  ser mãe não é pré-requisito para alcançar esta compreensão mais afiada. Mas, vai por mim, facilita muito. Caso você não tenha filhos, não tem problema. Faça estas reflexões com sobrinhos, afilhados, netos… O que conta é a experiência em tempo real que cuidar de alguém que amamos e passamos tempo suficiente para entrar em conflito requer. E que esta percepção possa engrandecer sua leitura do mercado. Não vale conta demo. Tem que ter calor, tempo de convivência. Tempo suficiente para que você lembre de estopar sua falta de paciência, sua pressa, seu cansaço…

Porque, antes de entrarmos neste tipo de operação, temos que ter um setup. Um setup que nos leve a operar bem o gráfico e o tempo que passamos juntos com nossos filhos e afins.

É aqui que começamos a ser day traders de fato.

Na aceitação de que vamos tentar com ferramentas, conhecimentos e estudos, identificar o movimento no gráfico que nos faça lucrar, embora, muitas vezes, tenhamos prejuízo.

Daí a compreensão que, tanto na maternidade quanto no day trading, o lucro vem quando aprendemos a surfar o movimento da vida. Não há como controlar completamente aquilo que não depende de nós. Ás vezes, cuidamos muito do nosso trade e acabamos perdendo. Às vezes cuidamos muito dos nossos filhos, e eles caem e se machucam bem na nossa frente. O que conta é que precisamos aprender a aproveitar muito bem nossos ganhos, pois a única certeza é que as perdas ocorrerão.

Na compreensão de que um minuto é tempo suficiente para grandes perdas e eternização de afetos. E que os minutos operados com amor e atenção ficam eternizados na nossa alma, na nossa história e daqueles a quem amamos.

Na percepção de que, mesmo sendo ótimos traders e pais suficientemente bons, ainda assim somos humanos e, por isso, vulneráveis. Uma das piores coisas que um trader pode fazer a si mesmo é negar sua humildade e sua vulnerabilidade. Uma das piores coisas que uma mãe pode fazer é iniciar um day trade e transformá-lo em swing trade. O filho pediu para brincar hoje, mas ela rola a “operação” para amanhã. Amanhã eu brinco, amanhã eu conto a historinha, amanhã cozinhamos juntas…

Enfim, por vezes é preciso olhar o mercado como uma criança. Uma mãe já sabe quando o ativo está fazendo birra e quando é preciso limite. Quando a gente apenas espera passar e quando a gente estopa e vai pra casa.

E uma das lições mais lindas de todas: depois de um dia com surtos, sorrisos, estopes, curtição e virada de mão no humor, a gente zera tudo, fica com o que alimenta a alma e, no outro dia, começa tudo de novo em uma parceria infinita com o tempo!

Fernanda

 

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3

maio

Recomeços no mercado financeiro

O caminho do trader tem várias possibilidades: há quem comece a operar e não pare mais. Há quem comece, pare e nunca mais volte e há aqueles que começam e, por inúmeros motivos param e, depois de um tempo decidem voltar a operar o mercado.

As palavras escritas aqui, neste texto, são um olhar um pouco mais demorado para aqueles que já desistiram uma ou inúmeras vezes, mas sempre acabam voltando. E cada volta encontra um trader, na maioria das vezes, mais maduro. Porque quando estamos vivos é mais ou menos isso que acontece, vamos abençoando pontos finais e liberando vírgulas. E cada recomeço é sinal que uma vírgula foi liberada, não no assunto que terminou, mas na vida. Ainda estamos em movimento, ainda estamos experimentando atrevimentos e flertando com o desconhecido. E assim muitos traders voltam para o mercado financeiro.

O grande desafio nesta etapa é poder identificar o que foi estopado dentro de si quando este mesmo trader saiu do mercado. Qual trade interno foi encerrado? Foi sofrido? Foi traumático, com perdas financeiras e afetivas, bem consideráveis? Ou foi um até breve, vou ver o que mais tem por aí…

A volta ao mercado depende um tanto desta percepção, pois se o trader traz consigo cicatrizes ainda vivas ele irá levar para o gráfico esta memória, este desconforto e, poderá virar um ponto cego no caminho à bons resultados. Saber ler sinais internos é tão importante quanto ler os sinais do gráfico e do mercado. No meu ponto de vista, são até mais importantes. Compreender se ainda existem intenções, objetivos que estão em aberto, à espera de um bom fechamento interno.

Não só no mercado, como também na vida,  é no mínimo interessante a gente poder perceber o que estamos de fato encerrando quando paramos uma atividade, quando saímos de um relacionamento e até mesmo de uma operação. E assim prestarmos mais atenção aos movimentos do ciclos em nossas vidas e também no mercado, percebendo e entregando-nos com alma leve e aprendizados em franca tendência de alta a cada recomeço como se estivéssemos começando do zero e fosse  tudo novo.

Pois de fato, é! O agora nunca existiu antes!

Fernanda Nunes Gonçalves

 

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20

março

Perdas no mercado financeiro e no coletivo

Quando operamos o mercado financeiro aprendemos que precisamos lidar bem com as perdas que, com toda a certeza ocorrerão. Aprendemos que perder bem é perder pouco, de preferência o mínimo possível. Sabemos que para recuperar uma perda significativa é bem difícil e nem sempre possível.

Acredito que as nossas dificuldades no mercado são traduções das nossas dificuldades fora dele. Levamos para as operações aquela bomba interna que, ou aprendemos  à desativar ou ela explodirá na nossa mão. No nosso bolso. E sabemos que suas consequências ecoarão no nosso todo. No humor, na família, na autoestima, no saldo….

 

De certa forma, essa mesma estratégia, de cuidarmos com respeito do que é nosso e assim trabalharmos para perder pouco, é uma bela estratégia fora do mercado financeiro também. Mas não utilizamos esta estratégia. Deixamos as perdas crescerem. E muito. Não estopamos nosso prejuízo. Agora ele alcança patamares gigantescos. Na saúde. Na alimentação. Na política. Na segurança pública. Na educação.  No convívio social. E provoca em nós emoções muito parecidas com aquelas que sentimos ao perder muito nas operações.  Ora ficamos perplexos. Ora desconsideramos a força do mercado e nos achamos intocáveis até que caia a ficha. Ora nos desesperamos. Para aqueles que não querem desistir do mercado, de si mesmos e da vida é um belo e necessário aprendizado este de recomeçar. Há quem desista fácil porque não sente sua sua própria força, aquela que não vem do ego, mas sim da alma. Aquela que nos transforma em formigas: pequenas mas extremamente fortes. É aos poucos que vamos construindo o muito. No mercado e na vida.

E depois do tombo o que fazer?

Aprender a ser formiga. Aprender a dar valor a cada operação, a cada lucro, a cada dia bem vivido, a cada atitude educada e a cada gesto de gentileza.

Aprender que somos pequenos antes de sermos grandes, pois se não for assim, corremos o risco de nunca crescer de verdade. E crescer  por dentro é um ato de coragem, um ato de auto-cuidado com o dinheiro e com a vida.

Não vamos fazer fortuna de um dia para o outro, na grande maioria das vezes. Não vamos salvar o mundo com atitudes boas. Perdemos o timing. O mercado não perdoa. Os políticos também não.

Então vamos ser humildes dentro e fora do mercado. Vamos nos cuidar assim mesmo. Vamos cuidar de cada lucro que temos e dar limites para cada perda para que não nos destrua usando nossa própria força. Não vamos autorizar, permitir  a nossa própria destruição. Vamos cuidar do mundo mesmo que não o salvemos, porque no mínimo daremos  bons exemplos e uma chance àqueles que amamos e a nós mesmos.

Que a gente possa lembrar que o amor que permanece é aquele que é incondicional, ou seja, que a gente saiba colocar stop no nosso lado auto- destrutivo e deixe fluir a operação com nosso lado humano em tendência de alta.

Fernanda Nunes Gonçalves

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27

fevereiro

Sobre o filme Truque de Mestre

Aparentemente o filme Truque de Mestre mostra o caminho que quatro ilusionistas estão percorrendo em busca do pote de ouro no fim do arco-íris, enquanto encantam o público com suas mágicas. Mas ao olharmos melhor, o filme nos convida à refletirmos como estamos percebendo as coisas, e à nós mesmos. Será que estamos enxergando direito aquilo que está diante de nossos olhos? Será que estamos percebendo onde, de fato, a vida está acontecendo? Ou estamos com olhar fixo para determinada cor, para determinada situação e, assim, esquecendo que a vida é composta por inúmeras cores e combinações?

Um dos personagens, durante o filme, diz: Olhe atentamente, porque quanto mais perto você pensa que está, menos você verá.  Nossa! Que sacada! A mágica brinca com nossos sentidos. Ela acontece bem diante de nossos olhos…abertos! E nos mostra que, nem sempre, enxergamos aquilo que está bem perto de nós.

Na vida acontece um fenômeno muito parecido!

E é, muitas vezes, nessa certeza de que estamos de olhos bem abertos e atentos, que perdemos o que, de fato, faz sentido viver.

Olhamos, mas será que estamos vendo? Será que estamos percebendo onde, de fato, a mágica ou a magia estão disponíveis?

Buscamos longe as respostas que moram dentro, no nosso corpo, naquilo que sentimos, contanto que a gente escute. Buscamos segredos de mágicas nas mangas alheias, sendo que todos os segredos estão disponíveis na maneira como percebemos as coisas e a nós mesmos. Se ampliarmos nossa percepção, provavelmente descobriremos segredos das mágicas, de nós mesmos e, também, do mercado financeiro.

Pois a ironia é que a mágica é a mesma para todos aqueles que estão olhando. A dor de uma perda vai ser percebida de acordo com o olhar interno de cada um. Para uns será um tombo, para outros um castigo e para outros uma oportunidade de aprendizado.  O que estamos vendo e sentindo também é dor. Mas ao ampliarmos nosso olhar, existe algo mais. Sei por experiência própria. Existe evolução, superação, compaixão. Nem sempre vemos esta parte da mágica. Mas ela está lá. Acessível para quem aceitar percebê-la.

É preciso ficar atento para onde estamos olhando e dando nossa atenção quando a mágica ocorre, quando a vida acontece. Será que estamos olhando para aquilo que verdadeiramente importa, ou estamos apenas curiosos e deslumbrados com as aparências?

Como o personagem diz no filme: “Quando o mágico acena com a mão e diz Aqui é onde a magia está acontecendo é porque o verdadeiro truque está acontecendo em outro lugar”.

Que a gente se permita ampliar nosso olhar e perceber onde, realmente, a mágica está acontecendo, além daquilo que estamos vendo e vivendo. Existem as cenas, as situações na nossa vida e existe algo maior, do qual fazemos parte mas, nem sempre, nos permitimos perceber.

Acredito que a mágica esteja lá.

Não estamos sendo enganados ou iludidos, apenas estamos tendo a oportunidade de perceber melhor o que realmente importa.

Fernanda Nunes Gonçalves

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20

fevereiro

Operando rompimentos dentro e fora do gráfico – parte I

Operar rompimentos é uma arte. Há quem olhe apenas para os números e, talvez assim, fique difícil de entender minha opinião. Um mais um são dois e ponto final. Para mim, um mais um ás vezes são três.  Ou quatro. E assim nasce uma família.

Mas como sempre falo, tudo depende de como olhamos para o mercado e para nós mesmos.

Porém, pensando somente nos números, muitas vezes buscamos uma exatidão que dê colo para a nossa necessidade de controlar nossos resultados no mercado. Aguardamos o centavo perfeito que dê asas para nossa operação. Porém, mesmo com lindas asas, sinais confirmados diante de nossos olhos e um conhecimento já crescidinho, mesmo assim o trade não voa.  Rompimento falso?

Tenho para mim que não. Rompimento legítimo.

Rompeu sem a menor sombra de dúvida. Mas não foi necessariamente a zona de preço. O que muitas vezes não percebemos é que uma  simples operação pode romper muito dentro de nós. Rompe com nossa paciência, com nossa seqüência de trades com lucros, ou prejuízos, com nossa autoconfiança, com nossa insegurança, com nossas ilusões de que  ter somente conhecimentos operacionais nos levarão aos resultados sonhados. Ou em franco delírio.

É uma bela estratégia aprendermos mais sobre os nossos rompimentos internos. Com olhar atento àqueles que não geram lucros. Àquilo que poderia ter fluido, mas não teve força suficiente. Àqueles números, preços, afetos, mágoas, alegrias, dores, perdão, habilidades, stops afetivos que correm o risco de ficar tempo demais aguardando uma certa força que vem da alma para que possam  ir em frente. No mercado,  um bom rompimento tem a intenção de continuidade, seguir caminho. É uma oportunidade. Os lucros que valem a pena moram nos movimentos que escolhemos fazer ou acompanhar.

Que na vida a gente aproveite este ensinamento.

Pois é preciso identificar aquilo que precisa de um empurrão para acontecer. Dentro e fora do mercado.

Fernanda Nunes Gonçalves

 

 

 

 

 

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12

fevereiro

Bagunça útil

Durante muito tempo fiquei acotovelando minha bagunça com minhas coisas. Acotovelei, tentei controlar, empilhei, larguei de vez, desprezei… Como se fosse uma adolescente em fase de ataque.

Claro, a adolescente estava em mim. Uma bonita queda de braço. Até que cansada, resolvi apenas olhá-la.

Sem expectativa.

O que falta que ainda não fiz?

Olhei bem para ela. Olhei bem para mim. Respirei fundo. Não se pode ter uma boa conexão com respiração curta. A energia não circula e tudo trava.

Percebi que faltava desistir. Não de me organizar, mas desistir de tentar excluí-la, como se, ao fazer isso  eu pertencesse a outro grupo: a dos organizados. Pois tenho em mim um pouco de tudo: de bagunça, de ordem, de coragem e de medo. O grupo do qual realmente pertenço é dos humanos em constante evolução.

Mas, de fato, não era isso que estava incomodando. A desorganização tem uma função muito particular para cada um.

Para mim era uma mensagem: eu tinha que me procurar!

Eu não estava fácil e nem disponível para mim mesma. Protegia minhas dores, minhas lembranças e também minhas alegrias. Não tocava nelas com facilidade. Precisava me dar um tempo para achá-las e, com calma, ir tocando na história e nos sentimentos acionados com o que merecia ficar e o que precisava ir.

Uma desorganização nunca permanece à toa. Ela nos fala. Ouviremos quando for suportável.

Também é uma questão de hábitos. A gente se acostuma a não se conectar com o agora. Então empilhamos para ver depois, resolver depois e colocar fora depois. Arrogantemente pensamos que somos eternos e que teremos todo o tempo do mundo para reviver o que guardamos.

A organização vem de dentro. Claro que tem bagunça que faz parte da decoração. Mas a bagunça que é amistosa, que revela uma vida com movimento e não uma vida evitada é mais que isso.

Então abri, pela primeira vez, um espaço para ela. Afinal, ela merecia. Acompanhava-me há tanto tempo.

E exatamente assim, do jeito que foi, no fundo, me foi útil. Caso contrário, eu já teria resolvido.

Deixei que ela fosse do jeito dela, sem intenções, sem críticas e sem tentar excluí-la.

Escutei seus segredos. Os meus segredos escondidos embaixo das coisas fora de lugar. E, no silêncio, senti coisas que me organizaram por dentro.

Não adianta brigar com coisas das quais precisamos. Elas tem um tempo para existir.

Há lembranças que ficarão para sempre em nossa alma. 

Quando não for assim, não será suficiente guardá-las em uma caixa.

Fernanda Nunes Gonçalves

 

 

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8

janeiro

O quebra-cabeças

Quando eu era criança, uma das brincadeiras que eu curtia era montar quebra cabeças. Porém sempre que eu espalhava as peças em cima da mesa, ou mesmo no chão para começar a montar eu achava que tinha peça faltando. Eu olhava para as peças e tinha a impressão que talvez nem todas as peças que eu precisaria para a figura ficar completa estariam ali.

Mas eu começava assim mesmo.

Ainda bem!

Ainda bem que eu me permitia começar a brincadeira, experimentar e ver se eu estava certa ou errada em relação se o brinquedo estava completo ou não. E sinceramente, não me lembro de alguma vez o jogo estar incompleto de verdade como eu sempre suspeitava.

Pois hoje em dia, dependendo do desafio que eu preciso enfrentar na vida, seja profissional, financeiro ou até mesmo de saúde, eu lembro  deste jogo. E esta lembrança me ajuda a enxergar melhor as peças internas que estão disponíveis e bem ao meu alcance. Porque muitas vezes quando temos um problema, um desafio no nosso caminho podemos ter a sensação que faltam “peças” dentro de nós para resolver, completar o desafio e seguir em frente. Peças que ora são forças, qualidades, jogo de cintura, maturidade, fé, energia, amor próprio, fôlego, humildade, coragem, amor.

É importante estarmos atentos se colocamos uma peça de dúvida em um jogo que está a nossa espera: Será que vou conseguir resolver? Será que vou conseguir completar o quebra cabeça? Será que eu tenho em mim tudo o que é necessário para solucionar esta questão ou até mesmo para alcançar meus objetivos?

Sempre lembro que, também diante dos problemas, a sensação de que está faltando algo, dentro  de nós que nos ajude a resolvê-lo é só uma sensação, na maioria das vezes. Todas as peças de que precisamos estão ali bem na nossa frente. Bem dentro de nós à espera da nossa ousadia, ora da nossa fé, ora da nossa humildade e do nosso atrevimento para que a gente se surpreenda com tudo o que está disponível para nós, contanto que a gente comece o jogo.

Fernanda Nunes Gonçalves

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1

janeiro

Você aceita trocar…

Na verdade eu não sei se o programa que vou fazer referência neste texto por acaso não está sendo reprisado por aí, pois não assisto mais tv aberta. Mas há muito tempo atrás Silvio Santos comandava, em um de seus programas, uma atividade em que uma pessoa entrava em uma cabine, colocava fones de ouvido para que não ouvisse o que estava sendo perguntado a ela e quando acendesse uma luz ela deveria dizer sim ou não.

Apenas isso: sim ou não.

Tratava-se de contar com a sorte. Enquanto Silvio Santos do lado de fora perguntava à pessoa: você aceita trocar um televisão 42 polegadas por uma meia furada? a criatura dentro da cabine aguardava acender a luz e tinha que responder alguma coisa. Podia gritar sim ou não.

Mas tinha que se posicionar.

E a brincadeira continuava, os objetos iam sendo alternados de acordo com a resposta do participante até o final quando este sairia, feliz ou não, com as conseqüências de suas respostas. A questão é, que quando a luz acendia, a sorte estava lançada e no final da brincadeira a pessoa podia sair da cabine com um baita presente ou com a certeza que nem sempre a sorte lhe sorriria.

Nesta virada de ano lembrei de Silvio Santos. E pensei em todos os nossos sins e nãos. Àqueles que dizemos contando com a sorte e àqueles que dizemos mais coerentes com nossos desejos. 

Pensei em todas ás vezes que disse sim querendo dizer não e também nas vezes que disse não querendo dizer sim. Além das vezes que disse qualquer coisa apenas porque a luz da urgência da realidade tinha acendido e eu precisava me posicionar. E sinto que quando o ano novo se apresenta temos uma oportunidade de prestar mais atenção aos nossos desejos, aqueles reais, nítidos, encorpados, para que a gente possa dizer um sim que é realmente um sim, aquele que vem da alma, muito mais do que da mente. E dizer não quando é não, com a autorização do nosso amor próprio. Além de tudo, este exercício é extremamente útil na hora de educarmos nossos filhos.

Então, desejo que neste ano, e também nos outros, mas (re)comecemos por este, a gente preste mais atenção às respostas que damos a cada movimento que a vida nos convida a participar.

Que a gente saia do piloto automático e se aproprie dos sins e não que damos à nós mesmos através de cada dificuldade e cada superação.

Que quando for um sim ele seja coerente com o que há de melhor em nós, que seja para nós  e quando for um não que seja apenas um sim para outras escolhas e não uma maneira de ferir o outro ou à nós mesmos.

Que a gente preste atenção nas trocas afetivas, financeiras e de tempo que estamos fazendo no nosso dia-a-dia, com a possível desculpa que estamos com fones de ouvido e não estamos ouvindo, que não estamos com tempo o suficiente para prestar atenção àquilo que nos convida a nos posicionar. No mercado financeiro também.

Que a gente não diga sim para 2017 sabendo lá no fundo que é um não, que é um sim apenas da mente.

Que a gente diga sim para 2017 com alma, intenção, com sabor, com humildade, com ação, energia, com totalidade, com atrevimento, com presença assim como merecemos dizer para nós mesmos, para o mercado e para a vida.  Pois quando “a brincadeira” acabar sairemos com as conseqüências de nossas respostas.

Fernanda Nunes Gonçalves

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