O Barulho de Dentro e o de Fora

Eu não estava com muita pressa. Caminhava na calçada normalmente. Quando a sirene de uma garagem de estacionamento sinalizou que um carro estava tentando sair.
Eu parei.
Ouvi, e parei.

Porém, muitos continuaram andando normalmente. Não ouviram o barulho de fora. Dentro o barulho estava mais alto. Gritos de tarefas, de preocupação, falas incessantes de respostas não dadas. Nossas orações.
E é assim que muitos acidentes acontecem. Por fora e por dentro. Com níveis de machucados e dores bem variadas.

Ás vezes a surdez nos salva de acidentes. Daqueles que podemos evitar. Quando somos convidados a entrar no ringue em discussões extremas, e dizer coisas que cortam fundo.

Ás vezes nos condena, quando nos desconecta da realidade que nos cerca e que, apesar de tudo, povoa nossos pensamentos. Denuncia que, o que mora fora de nossa cabeça também precisa de atenção.

A audição é um sentido realmente interessante. Ás vezes a gente ouve vozes que vem das nossas opiniões ao invés das vozes que vem dos fatos em si.

Aumentamos significativamente o volume de frases ditas no calor do diálogo, e diminuímos o volume daquilo que desacreditamos por ser bom demais para ser verdade.

Nossa distração com as buzinas e sirenes da vida são a prova de que, o que conseguimos ouvir, sinaliza mais uma sobrevivência que mora dentro de nós.

Fernanda Nunes Gonçalves
Autora dos livros Mais Que Palavras e Análise Técnica Muito Além do Divã

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