Bagunça útil

Durante muito tempo fiquei acotovelando minha bagunça com minhas coisas. Acotovelei, tentei controlar, empilhei, larguei de vez, desprezei… Como se fosse uma adolescente em fase de ataque.

Claro, a adolescente estava em mim. Uma bonita queda de braço. Até que cansada, resolvi apenas olhá-la.

Sem expectativa.

O que falta que ainda não fiz?

Olhei bem para ela. Olhei bem para mim. Respirei fundo. Não se pode ter uma boa conexão com respiração curta. A energia não circula e tudo trava.

Percebi que faltava desistir. Não de me organizar, mas desistir de tentar excluí-la, como se, ao fazer isso  eu pertencesse a outro grupo: a dos organizados. Pois tenho em mim um pouco de tudo: de bagunça, de ordem, de coragem e de medo. O grupo do qual realmente pertenço é dos humanos em constante evolução.

Mas, de fato, não era isso que estava incomodando. A desorganização tem uma função muito particular para cada um.

Para mim era uma mensagem: eu tinha que me procurar!

Eu não estava fácil e nem disponível para mim mesma. Protegia minhas dores, minhas lembranças e também minhas alegrias. Não tocava nelas com facilidade. Precisava me dar um tempo para achá-las e, com calma, ir tocando na história e nos sentimentos acionados com o que merecia ficar e o que precisava ir.

Uma desorganização nunca permanece à toa. Ela nos fala. Ouviremos quando for suportável.

Também é uma questão de hábitos. A gente se acostuma a não se conectar com o agora. Então empilhamos para ver depois, resolver depois e colocar fora depois. Arrogantemente pensamos que somos eternos e que teremos todo o tempo do mundo para reviver o que guardamos.

A organização vem de dentro. Claro que tem bagunça que faz parte da decoração. Mas a bagunça que é amistosa, que revela uma vida com movimento e não uma vida evitada é mais que isso.

Então abri, pela primeira vez, um espaço para ela. Afinal, ela merecia. Acompanhava-me há tanto tempo.

E exatamente assim, do jeito que foi, no fundo, me foi útil. Caso contrário, eu já teria resolvido.

Deixei que ela fosse do jeito dela, sem intenções, sem críticas e sem tentar excluí-la.

Escutei seus segredos. Os meus segredos escondidos embaixo das coisas fora de lugar. E, no silêncio, senti coisas que me organizaram por dentro.

Não adianta brigar com coisas das quais precisamos. Elas tem um tempo para existir.

Há lembranças que ficarão para sempre em nossa alma. 

Quando não for assim, não será suficiente guardá-las em uma caixa.

Fernanda Nunes Gonçalves

 

 

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