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July

Sonhos

Sempre ouvi que devemos ir atrás dos nossos sonhos. E sempre destaquei a palavra sonhos. Não tinha me dado conta que a palavra nossos era tão importante quanto a outra.

Nossos sonhos.

Sem querer querendo, corremos atrás de sonhos sem perceber que nem sempre são os nossos.

Deu linha cruzada.

São de alguém que queremos ajudar, agradar ou compensar, por acharmos que seu destino é pesado demais. Talvez, por isso, muitos dos nossos sonhos não dêem certo. Talvez, lá no fundo, a gente nem sempre se dedique suficientemente à eles. Por vezes até  acreditamos, mas pensamos em concluir um sonho de cada vez. E o nosso acaba indo para o fim da fila.

Neste tipo de sonho, muito secretamente, quem comanda é a razão. Em nome do coração. Mas ainda assim, a razão. Achamos que, se amamos, temos que realizar os sonhos alheios.

E a gente passa anos, fases inteiras de nossas vidas, tentando alcançar o sonho que mora em outro peito. A ironia está no fato de que seguimos os sonhos de nossos pais e, quando eles são realizados, não tem a alegria esperada.

Nesse momento é tão importante lembramo- nos do respeito ao que mora dentro do outro. Talvez aquele desejo fosse o desejo de outra época, para ser saboreado com pessoas que talvez não estejam mais presentes. Ou com uma idade um tantinho menor do que a de agora. E é por isso que é tão delicado buscar obsessivamente realizar desejos de outras pessoas. Muitas vezes eles só querem ser sonhados por dentro.

A gente adota sonhos alheios e, se bobear, deixamos os nossos para adoção. Assim a gente vai criando uma bola de neve que passa de geração para geração. Fazemos isso e, de novo, sem querer querendo, vamos passando a mensagem para nossos filhos. Estes acolhem o exemplo, adotam nossos sonhos, deixando os seus para trás. Por amor buscamos realizar os desejos que nasceram no passado e ainda vivem no agora, daqueles que são importantes para nós.

E fazemos uma confusão por causa disso.

Ás vezes dá certo. Mas, quando dá errado, olhamos para trás e lá se foi um tantão de vida.

E cabe tanta coisa nela!

A gente pode fazer um pouquinho diferente. Bem pouquinho, para não assustar nossa zona de conforto. A gente pode parir também os sonhos que povoam nosso peito, e se atrever a realizá-los. Pelo menos chamá-los de meus, de nossos. Porque podemos ser felizes e dedicar esta felicidade à quem tanto nos ajudou.

Pelo menos regar os sonhos que também merecem e precisam de nosso cuidado.

Talvez, assim, nossos filhos tenham um exemplo mais coerente de tudo aquilo que aconselhamos a eles.

Fernanda Nunes Gonçalves

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This entry was posted on Wednesday, July 19th, 2017 at 10:26 pm and is filed under Vínculos. Follow the comments through the RSS 2.0 feed. You can post a comment, or leave a trackback.

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