3

agosto

A Morada

Aquele senhor de cabelos brancos, com aparência amável e voz tranquila, no meio da conversa iniciada com uma moça em uma sala de espera, então perguntou:

– Onde moras?

Em um primeiro momento ela não viu nenhuma maldade e quase iria contar. Até que se lembrou da voz de sua mãe:

– Não dê informações à estranhos.

E embora não fosse mais criança, ela tinha escolhido levar para sempre as orientações maternas. E então se fechou, tal qual uma concha.

– Desculpe-me, mas não comento este tipo de coisa.

– Entendo. Disse o senhor meio desconfortável, mas respeitoso, já que seu objetivo era apenas conversar.

Parecia que o médico do qual estavam esperando suas consultas iria demorar um tanto. E a moça continuou:

– É que hoje em dia é muito perigoso dizer onde moramos. Essas coisas são muito pessoais.  Tão íntimas que, no fundo, meu endereço não é onde moro.

O senhor viu que tinha mexido em um vespeiro. Afinal, a mais inocente das perguntas, quando feita a uma mulher, pode ter proporções desconhecidas, pensou ele. A sua experiência vinda de três casamentos lhe contara sobre isso. Mas estava disposto a dar a ela um presente em forma de tempo e apenas passou a escutar-lhe, sorrindo com os olhos.

A moça então lhe disse:

– Meu endereço e minha morada estão em locais distintos. Meu endereço é para onde volto todos os dias. Minhas coisas estão lá. Minhas contas vão todas para lá. Fiz uma decoração simples. Desapegada. E sou muito grata por ter um canto meu. Mas meu coração… meu coração não mora lá. Ele…

Resolveu parar. Quis perguntar ao senhor se estava sendo muito chata. Mas a verdade, é que ela mesma precisava de fôlego para tocar na intensidade do que iria contar àquele senhor. Sem revelar seu endereço, claro!

– Podes continuar minha querida. Enquanto não for a minha hora posso lhe oferecer meu tempo, é o que mais tenho.

A moça sorriu. Suspirou. E continuou. Como se estivesse começando um trabalho de parto. Não dava mais para interromper.

– Mas moro mesmo em um lugar que não existe mais fisicamente.o consigo tocar mais com minhas mãos. Já voltei lá onde passei minha infância, mas a casa tinha sido demolida. As árvores cortadas e a Dona Jurema não tinha mais a padaria que vendia as mais deliciosas tortas. Àquelas que saboreei ao lado de minha mãe em um momento cuja atenção era toda minha. Olhos nos olhos. Corações entrelaçados e pulsando amor intenso.

– É lá que moro de verdade, que visito e me recomponho todos os dias. São naquelas lembranças vivas que busco força para plantar novas árvores e saborear novas tortas.

Aquela altura o senhor estava imerso na história ouvida e na sua própria. Ele também morava onde seu coração estava. E não era no seu endereço. Também sentiu saudades. E um nó na garganta.

Os dois sorriram, um para o outro, em uma cumplicidade onde as palavras não eram mais necessárias.

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This entry was posted on quinta-feira, agosto 3rd, 2017 at 11:11 pm and is filed under Vínculos. Follow the comments through the RSS 2.0 feed. You can post a comment, or leave a trackback.

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